Ofício do Pintor

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O ofício do pintor confunde-se com a própria atividade do homem desde a pré-história quando se protegia e registrava sua vida nas paredes das cavernas.

É necessário distinguir-se a denominação, no passado, do pintor, do caiador e do artista. Pintor era a pessoa que pintava as paredes internas e externas de uma edificação, dando um acabamento decorativo, como por exemplo, os marmorizados e fingimentos, máscaras... No século XIX e no primeiro quartel do XX foram realizados trabalhos notáveis desse tipo de decoração. O caiador era a pessoa que aplicava o leite da cal, com ou sem pigmentos ou corantes, nas paredes internas e externas, muitas vezes ainda com as argamassas de revestimentos frescas. O artista pintor era a pessoa encarregada da elaboração das pinturas artísticas nas paredes através de painéis ou afrescos, nos forros de madeira ou estuque, nos portais... Dos séculos XV ao XIX foram realizados os mais relevantes trabalhos da história da pintura luso-brasileira.

Imagem: Experiências de pintura decorativa de paredes, Karla Grimaldi.
Edição de foto: CECI/2007

Aparentemente, pelo menos durante o período colonial os pintores (aqueles que se dedicavam às obras de construção), não se organizaram em confrarias de ofício tal qual os dos carpinteiros, pedreiros e marceneiros. O preparo das tintas e vernizes até o advento da industrialização no Brasil, que se deu no século XX, mostra-se, aos olhos de hoje arcaico e de uma inesperada complexidade.

Os pintores, ao manipularem corantes, solventes e secantes, apresentam-se como verdadeiros “alquímicos”. Muitas substâncias eram perigosas e ofereciam risco de envenenamento. Assim, fica-se surpreso ao se imaginar que deveriam ser elaboradas no canteiro de obra.

Os termos utilizados na elaboração das ”formulações” presentes nos raros manuais e tratados escritos em português do século XVIII e XIX - hoje desconhecidos e em sua maioria de aspecto exótico - colaboram para dar uma certa áurea de mistério aos praticantes do ofício. Para a sua compreensão, torna-se agora imprescindível o uso de dicionários especializados.

As tintas e vernizes obviamente, não apenas procuravam embelezar as superfícies, mas, acima de tudo, proteger as madeiras, as alvenarias e o ferro contra as intempéries. Tais formulações vinham de uma longa tradição européia fundadas apenas na experiência.

 

Fig. 1 Pintura parietal encoberta com caiação na Igreja do Mosteiro de Nossa Senhora do Monte, em Olinda - PE, século XVII. Fonte: Jorge Tinoco. CECI - 2006

Fig. 2 Pintura e douramento sobre o arco cruzeiro da nave da igreja do Convento Franciscano do Paraguaçu, em Cachoeira - BA, século XVIII. Fonte: CECI - 2005

Fig. 3 Pintura parietal (caiação) e decorativa (s/talha de madeira) da ilharga do Evangelho da Igreja de Nossa Senhora das Correntes, em Penedo - AL, século XVIII. Fonte: Anneliese Tiburtius. CECI - 2004

Fig. 4 Aula sobre preparação de pigmentos naturais no curso de Gestão de Restauro , pelos professores de química do CECI. Fonte: CECI - 2005

Como uma parte do resgate do ofício tradicional do Pintor se refere às formulações de tintas, é importante p conhecimento dos manuais e tratados escritos em língua portuguesa.  Dos exemplos são citados:

“Arte da Pintura, Symetria e Perspectiva Composta”(1).  Embora dedicado à pintura artística, esta obra do português Felippe Nunes, publicada na segunda metade do século XVIII, trás inúmeras referências à produção de tintas.

“O Vinhola Brasileiro”(2).  Cita-se como exemplo de um manual do final do século XIX É de autoria do engenheiro César de Rainville, de origem alemã e formado pelas escolas politécnicas de Hannover e Carlsruhe. O autor algumas décadas na Província do Espírito Santo. Ainda que esta obra seja dedicada à arquitetura de um modo geral, nela pode-se ter parte do conhecimento do ofício do pintor brasileiro no período assinalado.

Uma observação geral deve ser feita: ao se comparar os conteúdos destes dois manuais pode-se constatar a pouca evolução do ofício em um intervalo de mais de cem anos!

Ao contrario do sucedido com outros tradicionais ofícios da construção, a arte dos pintores ainda não foi estudada de modo a ser convenientemente resgatada e utilizada nas ações contemporâneas de Conservação e Restauro. O resultado disto é facilmente observável no tom surrealista (ou melhor, carnavalesco) das tintas industrializadas sobre o patrimônio arquitetônico, sempre com colorações vivas e variadas, bem diferente das originais, cuja regra sempre foi a limitação da paleta.

Além disso, a utilização das tintas industrializadas, com alto grau de impermeabilidade e durabilidade, características técnicas impostas pelo mercado, tem contribuído não apenas para o surgimento de patologias nas mesmas paredes que se pretendeu resguardar, mas, para uma visão urbana sem pátina...


Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco, responsável técnico
Prof. Dr. Roberto Antônio Dantas de Araújo, curador

(1) NUNES, Filippe. Arte da Pintura, Symetria e Perspectiva Composta. Officina de João Batista Álvares,Lisboa, 1767. 
(2) Rainville, César de. O Vinhola Brazileiro - novo manual prático do engenheiro, arquiteto, pedreiro, carpinteiro, marceneiro e serralheiro. Eduardo & Henrique Laemmert. Rio de Janeiro, 1880.

 

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