Restauração do retábulo de São Roque

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A Capela de São Roque, situada no Conjunto Franciscano de Olinda, é o local que apresenta o maior número de obras de arte e bens integrados da Ordem Terceira de São Francisco.

Formam este conjunto de grande significância o forro em caixotões com pinturas a óleo isoladas sobre painéis de madeira; a cabeceira da nave com dois retábulos laterais ao arco cruzeiro, totalmente revestidos por talha em madeira policromada e com pintura dourada; dois retábulos localizados em cada ilharga da nave, sendo o do lado do Evangelho dedicado a São Bendito e o do lado da Epístola dedicado a Santo Antônio; o cadeiral em madeira escura finamente entalhada nas laterais da nave central da capela; dois balcões em talha de madeira policromada; o púpito entalhado; as sanefas sobre as portas de acesso à sacristia e outras dependências da Ordem Terceira, também em madeira esculpida e policromada, e por fim, o retábulo da capela-mor dedicado a São Roque.

 

Imagem 1: Capela de São Roque. Fonte: CECI (2008)

O retábulo de São Roque tem sido objeto de intervenção desde maio de 2008. Este projeto de conservação foi elaborado pelo Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada (CECI) em estreita colaboração com a Venerável a Ordem Terceira de São Francisco, proprietária do bem, recebendo recursos financeiros do World Monuments Fund e do American Express.

Como o Conjunto Franciscano foi tombado pelo IPHAN em 1938, e juntamente a ele todos os seus bens integrados, o Retábulo de São Roque da Ordem Terceira também faz parte do sistema de proteção patrimonial até hoje vigente, sendo a essencial a permanência dos valores nele reconhecidos.

Nesse sentido, deve-se ressaltar o seu valor histórico e artístico, visto ser um retábulo que mescla uma produção estética afeita ao barroco, rococó e neoclássico, três estilos que tiveram no Estado de Pernambuco uma expressão bastante definida e notória. Este retábulo demonstra materialmente a transição destes estilos, guardando expressões de cada um deles. Desse modo, por meio de tais formas, podem ser verificados registros do século XVIII e XIX dos trabalhos de talha em madeira, pintura e douramento.

Este bem integrado é formado por onze áreas distintas, que compõem o embasamento, bases de sustentação, tablado central, nichos, sacrário, colunas, entablamentos, coroamento, arcos, trono e esplendor.

 

Imagem 2: Retábulo de São Roque no momento anterior ao início das intervenções
Fonte: CECI (2008)

Imagem 3: Elevação do retábulo ou Mapa de Desmonte, ilustrando suas distintas partes
Fonte: CECI (2008)

Entretanto, a necessidade de realização de uma intervenção no retábulo foi resultado do estado de conservação que o mesmo se apresentava no primeiro semestre de 2008, cujos problemas acumularam-se durante alguns anos.

De modo geral, verificou-se que este estado de conservação foi o resultado direto de três fatores: a deterioração dos materiais pelo decorrer do tempo, a ação de agentes externos como insetos xilófagos e morcegos, agravada pela falta de manutenção adequada; e ações tomadas em intervenções anteriores.

Foram encontradas fissuras no madeiramento; manchas escuras decorrentes da ação de fungos na madeira; parafusos oxidados e conseqüentes fissuras e perdas da camada pictórica adjacente; perda do suporte de madeira por contato com águas pluviais e apodrecimento causando grandes fragilidades estruturais, sujeiras decorrentes da presença de excrementos de morcego, galerias e desgastes causados pela ação de insetos xilófagos; além de outros danos menos recorrentes.

A integridade do retábulo ainda estava comprometida por ações de intervenções anteriores que utilizaram mão-de-obra e materiais inadequados no projeto de restauro. Conseqüência disto, grande parte do douramento original foi recoberto por purpurina e verniz impróprio e a maioria das superfícies recebeu uma camada de materiais diferentes do original (massa corrida e massa de vidro, por exemplo). Os serviços foram mal executados, o que ocasionou abaloados de excesso de material e problemas no acabamento, havendo em diversas situações, sobreposição do material ao ornamento ou douramento.

Frente a esta situação, o CECI deu início às atividades de conservação, visando a eliminação dos danos estruturais do retábulo, que estavam pondo em risco a permanência dos principais valores nele reconhecidos, e que se expressam preponderantemente por meio da sua materialidade, além do reparo dos danos estéticos caudados pelos fatores acima enumerados.

A intervenção, delineada após o estabelecimento dos objetivos e dos estudos preparatórios (análise da situação inicial, caracterização do suporte, da camada pictórica e do douramento do retábulo, identificação e mapeamento dos danos  e pesquisa e identificação de intervenções anteriores) foi estruturada da seguinte forma:

• Mobilização do canteiro e instalações provisórias
• Documentação gráfica e fotográfica
• Testes e análises microquímicas
• Desmontes
• Higienização superficial
• Refixação dos elementos em desagregação
• Consolidação estrutural
• Remoção de intervenções passadas
• Limpezas químicas e mecânicas
• Nivelamento
• Reintegração de camadas
• Douramento
• Proteção das superfícies
• Remontagem
• Desmobilização do canteiro de obras

Até o presente momento, já foram realizadas as oito primeiras etapas. Dentre este conjunto, é pertinente explicitar os princípios que vêm orientando a execução destas duas últimas, ou seja, a consolidação estrutural e a remoção de intervenções passadas.

A consolidação está sendo realizada com o objetivo de devolver às peças que conformam o retábulo, e que foram danificadas, as suas propriedades estruturais. Apesar de ter sido encontrado um grande número de danos na maior parte da superfície das peças, os mesmos não se estendem por grandes áreas, sendo suficiente a aplicação de enxertos. Estes enxertos aplicados são em madeira do tipo cedro ou ipê, e estão sendo fixados com cola de osso.

Os enxertos estão sendo inseridos a fim de fazer o preenchimento de áreas das peças que anteriormente se encontravam cobertas por massa corrida ou cimento ou de locais afetados pelo ataque de insetos xilófagos, pela umidade, ou pela água de chuva. Estes enxertos são inseridos de modo a causar a menor interferência nas peças originais e serão destacados em relação a estas por meio de um acabamento distinto. Deste modo, objetiva-se tornar discerníveis as adições decorrentes desta intervenção, a fim de não cometer um falso histórico, pressupondo uma falsa idéia de contemporaneidade com o restante da obra.

 

Imagens 4 a 7: Processo de consolidação estrutural na peça do entablamento direito do retábulo. Fonte: CECI (2008)

É importante pontuar que apenas as lacunas presentes em áreas contendo elementos geométricos, como frisos, colunas, volutas é que receberão preenchimento. As demais perdas que correspondiam a desenhos orgânicos, como florais, guirlandas, capitéis, entre outros, não serão alvo de refeitura, já que não apresentam elementos referenciais para a reconstituição das formas.
As remoções de intervenções passadas vêem se desenvolvendo seguindo determinados critérios de avaliação, a fim de decidir pela permanência ou retirada das mesmas. Estes critérios foram pautados nos quesitos técnicos, éticos e estéticos das intervenções anteriores, listados na relação abaixo:

• Pertinência da técnica adotada
• Qualidade de execução técnica
• Pertinência dos materiais utilizados
• Ausência de patologias na área original causadas pela intervenção
• Harmonia entre as áreas originais e as que foram objeto de intervenção
• Distinção visual entre as áreas originais e as que foram objeto de intervenção

Ao se ponderar sobre cada um destes critérios, foi decidido pela remoção da massa corrida que cobre a maior parte da superfície branca do retábulo. As razões que motivaram esta decisão se referem, sobretudo à má qualidade de execução técnica, já que pode ser verificado o acúmulo de massa em determinadas áreas de entalhe, fazendo com que determinadas formas percam seus contornos e arestas. Além disto, está sendo retirada toda purpurina que recobria as áreas de lacunas nos douramento originais, já que o uso deste material provoca oxidações e manchas sob as superfícies.

 

Imagem 8: Massa corrida mau aplicada com problemas de descolamentos. Fonte: CECI (2008)

Imagem 9:  Áreas recobertas de purpurina oxidada. Fonte: CECI (2008)


Espera-se com a execução desta intervenção, melhorar o estado estrutural e estético do retábulo de São Roque, a fim de que continue transmitindo os principais valores pelos quais o mesmo foi considerado um monumento histórico e artístico de significância nacional.

 

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