Restauração de bens integrados - São Francisco de Olinda

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O CECI encaminhou ao World Monuments Fund - Robert W. Wilson Challenge to Conserve Our Heritage o Relatório intermediário dos trabalhos de restauro dos bens integrados da Ordem Terceira do Conjunto Franciscano de Olinda.

O relatório apresentou os resultados parciais da implantação do projeto de conservação dos bens artísticos integrados da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Olinda, especificamente, dos subprojetos de substituição do sistema elétrico do edifício e de conservação das pinturas dos forros da Sacristia e da Capela dos Noviços.

O Conjunto Franciscano foi tombado pelo IPHAN em 1938 e inscrito no Livro de Belas Artes. Tem área de 3.349 m2 distribuídos em três pavimentos com dois setores, correspondentes ao Convento Franciscano e a Ordem Terceira.

Os seus bens artísticos integrados da Ordem Terceira estão concentrados na Capela de São Roque, Capela dos Noviços e Sacristia e são de valor artístico indiscutível e de alto valor histórico. Destacam-se as pinturas dos forros, que quando vistas em conjunto com as do Convento e Igreja de Nossa Senhora das Neves, constituem um museu da pintura sacra que apresenta ricamente a produção pernambucana dos séculos XVIII e XIX.

 

Img. 1 - Capela de São Roque da Ordem Terceira de São Francisco de Olinda.

Na Capela de São Roque, destacam-se o forro em caixotões, o retábulo da capela-mor, a cabeceira da nave com dois retábulos laterais, os dois retábulos localizados nas ilhargas da nave, entre outros. Na Sacristia, o destaque é o forro plano que tem como tema, São Francisco recebendo os estigmas de Cristo. Na Capela dos Noviços, local de realização dos velórios, o destaque cabe, também, ao forro pintado, cujo tema está representado por São Francisco dando as Regras aos Irmãos Terceiros.

A segunda parte do presente relatório contempla a análise histórica e artística de tais pinturas. Relata-se que a chegada dos franciscanos (capuchos) portugueses à capitania de Pernambuco ocorreu em 1585, durante a política de expansão missionária. Em Olinda, os franciscanos receberam o apoio de D. Maria da Rosa, que lhes fez doação de uma igreja construída sob a invocação da Senhora das Neves, onde construíram seu primitivo convento. O mesmo sofreu reformas e ampliações, possivelmente entre 1714 e 1757, também movidas pela intenção de integrar as fachadas e edifícios da Ordem Terceira, Igreja de Nossa Senhora das Neves, portaria conventual e edificação do novo convento. Embora não esteja conhecida uma periodização construtiva para a Ordem Terceira, pode-se supor que os seus diversos ambientes datem da segunda metade do século XVII (1660-1690/1700).

Promoveu-se também a identificação estilística e época provável da execução dos bens artísticos integrados da Ordem Terceira, que apontam suas raízes para o barroco e rococó pernambucano do século XVIII. Os forros em perspectiva arquitetônica e painel central figurativo da Sacristia e da Capela dos Noviços, executados já nos finais do século XVIII (1780-1790) têm nas suas evidências estilísticas, características de sua contemporaneidade.

A terceira e quarta partes do relatório apresentam o percurso das intervenções de conservação previstas pelo Plano Diretor de Conservação do Conjunto Franciscano de Olinda. Estas consistem em diretrizes emergenciais voltadas para a renovação com substituição do sistema de alimentação e distribuição da rede elétrica da Ordem Terceira e recuperação dos forros da Sacristia e Capela dos Noviços. Ambos os projetos elaborados pelo CECI foram submetidos e aprovados pelo IPHAN.

Os trabalhos foram iniciados com a intervenção no sistema de alimentação e distribuição da rede elétrica, de modo a atender às necessidades específicas da Ordem Terceira. Este sistema encontrava-se velho, precário e sem conformidade com as exigências técnicas de demanda da edificação, colocando todo o Conjunto Franciscano sob risco de incêndio. Frente a esta situação, buscou-se eliminar as instalações desgastadas e gambiarras que colocavam as edificações aos riscos de sinistros, estabelecendo a segurança física do conjunto, fornecendo índices aceitáveis de luminância nos ambientes e assegurando economia do consumo de energia elétrica.

 

Img. 2 - Luminária e ventilador propostos pelo projeto.

Para tanto, se partiu do princípio da utilização das técnicas e procedimentos não-destrutivos, ou minimamente invasivos, que propiciassem a preservação das principais características da Ordem Terceira. Como diretrizes projetuais, foram adotadas a intervenção mínima com possibilidade de reversibilidade das ações, a utilização de modos semelhantes de iluminação no passado, a prioridade na difusão da luz na iluminação dos forros pintados, a minimização do embutimento das tubulações e a aplicação de luminárias em paredes e tetos, a utilização de luminárias com desenho contemporâneo e a utilização de redes lógica WI-FI e de telefonia sem fios.

A metodologia de intervenção de conservação dos forros partiu de quatro diretrizes: 1) a manutenção da autenticidade da matéria e do processo construtivo; 2) a mínima intervenção possível; 3) a utilização de materiais e técnicas tradicionais, sempre que possível e 4) a garantia de o máximo de reversibilidade à intervenção.

A estratégia das ações foi planejada buscando-se promover a revalorização do espaço da sacristia pela melhoria do aspecto pictórico do forro pintado, e a manutenção da importância do espaço da Capela dos Noviços, por meio da recuperação das perdas na camada pictórica do seu forro.
O CECI realizou uma série de ensaios de reintegração virtual para verificar quais técnicas de pintura, cores e tonalidades se adequavam melhor aos objetivos de reintegração pictórica dos forros. Foram, também realizados ensaios de extensão da reintegração que partiam do preenchimento das pequenas lacunas, passando pelas médias, grandes, até atingir a reintegração total. Esse estudo permitiu o estabelecimento de debates sobre as condutas de intervenções de modo a qualificar as áreas e os níveis de ações de conservação a partir de simulações digitais.

A pintura do forro da Sacristia destacava-se dentre os elementos artísticos integrados mais ameaçados da Ordem Terceira. Seu estado de conservação era deplorável, encontrando-se com grandes áreas de perdas e uma grande proliferação de agentes de degradação. A quantidade total de lacunas foi calculada em aproximadamente 60% da área total. Esse percentual comprometia seriamente a leitura das composições da pintura bem como sua integridade.

 

Img. 3 - Forro da Sacristia. Foto de Assis e Leandro Lima/2007

Cabe destacar que a técnica pela qual a pintura foi realizada é têmpera a ovo na maior parte da área, sendo possível que a camada pictórica do medalhão de São Francisco tenha recebido óleo ou verniz.
A documentação da obra é realizada através do registro diário dos serviços com as anotações no Livro de Ocorrências, das tomadas fotográficas das atividades e do registro gráfico dos elementos construtivos com respectivos danos.

Para a definição das técnicas e materiais que têm sido utilizados na conservação do forro da sacristia foi necessária a realização de testes. Até o momento, foram realizados os testes químicos para a identificação da composição da camada pictórica, os testes de colas naturais e sintéticas para a refixação da camada pictórica e os testes de impermeabilização das camadas de nivelamento.
A limpeza e desinfecção do forro, tanto da área voltada para a camada pictórica, como do anverso das tábuas, foi realizada com o auxílio de pincéis largos de cerdas macias, e de aspirador de pó (exclusivamente no ambiente do intradorso), objetivando a eliminação das sujeiras, incrustações e parte da população microbiana.

 

Img. 4 - Pormenor do forro da Sacristia: São Francisco recebendo os estigmas do Cristo Seráfico. Foto de Assis e Leandro Lima/2007

Os elementos da camada pictórica do forro, dos frisos e cimalhas que estavam apresentando descolamentos, desagregações ou outras fragilidades foram re-fixados. Foram aplicadas, por meio de seringa e agulha, pequenas quantidades de álcool etílico hidratado (70%) e a cola coelho. Após a aplicação da cola, foi utilizada espátula térmica para acomodar as camadas mais salientes da pintura e tornar mais eficaz a ação da cola.

Também foram realizados desmontes parciais das cimalhas presentes na sacristia, logo abaixo do forro. Esta medida foi tomada tendo em vista o precário estado de conservação da suas tábuas componentes, seriamente danificadas pela ação de insetos xilófagos. As limpezas químicas e mecânicas da camada pictórica foram supervisionadas pela química Ana Elizabeth, do LABORARTE onde se utilizou inicialmente borracha verde macia e lixa de baixa abrasividade. Já a limpeza química tem sido realizada com a solução de álcool absoluto com água desmineralizada.

A consolidação estrutural está sendo realizada por meio da inclusão de enxertos nas tábuas em madeira que formam a cimalha da sacristia. Os enxertos utilizados são em cedro e têm sido fixados por meio de samblagens, adicionando-se pequenas quantidades de cola para madeira. Como medida emergencial para se evitarem desprendimentos das tábuas do forro à sua trave de sustentação, as mesmas têm recebido um reforço por meio da aplicação de cantoneiras de alumínio em perfil “L” no lado do intradorso da coberta.

No dia 2 de abril de 2008, foi dado início aos trabalhos de nivelamento dos trechos da camada pictórica que estão sendo reintegrados. O nivelamento está sendo realizado com a aplicação de camadas de gesso com cola coelho a 3,5%.

Paralelamente aos trabalhos de nivelamento, têm se desenvolvido os trabalhos de reintegração da policromia ou reintegração estética, ou seja, o preenchimento das lacunas faltantes. As reintegrações das camadas pictóricas têm buscado se diferenciar do restante da obra por meio da utilização de uma técnica distinta e/ou de tonalidades distintas daquelas encontradas na obra original.

No caso da sacristia, apenas as lacunas pequenas (até 8 cm2) aguada com sub-tom e médias (até 80 cm2) pontilhismo estão sendo reintegradas. As pequenas têm recebido uma camada de tinta aguada nas mesmas cores sugeridas pelos seus contornos sendo em um tom mais baixo. As médias estão sendo reintegradas pela técnica do pontilhismo onde serão utilizadas sempre três cores, isto é um fundo e duas outras nos pontos coloridos. As lacunas maiores e as grandes perdas, onde o suporte (a madeira) esteja aparente, não serão objeto de reintegração, mas somente será ajustada a cor onde a base (cor branca) ainda esteja aparente, com uma pintura homogênea em tom que não ressalte visualmente a lacuna ou a perda, relativamente às zonas com camadas pictóricas. Nessas porções de perda, as tonalidades das cores dos fundos variarão conforme as das cores das áreas anexas.

As atividades voltadas à conservação do forro da Capela dos Noviços, apesar de terem se iniciado posteriormente às da sacristia, tem se desenvolvido paralelamente à primeira. Cabe pontuar que a pintura do forro da Capela dos Noviços tem as mesmas disposições artísticas e técnicas dos aplicados na sacristia.

 

Img. 5 - Forro da Capela dos Noviços. Foto de Assis e Leandro Lima/2007

A metodologia da conservação desta capela é semelhante à utilizada na sacristia. Embora aparentando um nível razoável de conservação na fase do projeto, ao serem armados os andaimes, foi possível verificar a grande extensão de danos e patologias no forro. Seguindo os procedimentos realizados na sacrisita, foram elaboradas Fichas de Identificação de Danos (FID), além do Mapa de Danos. As principais manifestações ou sintomas de danos no forro da Capela dos Noviços que foram identificadas consistem em perdas médias e pequenas da pintura original, fissuramentos das tábuas do suporte, substituição de tábuas originais com pinturas de baixa qualidade técnica, re-pintura geral do fundo pictórico, intervenções de restauro inadequadas, descolamentos das camadas pictóricas, oxidação de pregos e parafusos, deformações por empenamentos nas tábuas. Identificou-se que a natureza dos danos decorreu principalmente pela ignorância humana e pela qualidade dos materiais do suporte e da pintura.

 

Img. 6 - Elaboração do Mapa de Danos com fotografia digital de alta resolução.

 

Img. 7 - Ficha de Indentificação de Danos (FID).

Semelhante à sacristia, a técnica de pintura é a base de têmpera a ovo nas áreas originais, entretanto, os testes químicos ainda não demonstraram se o medalhão central recebeu a base de tinta óleo ou verniz.

Cabe citar que em momento não identificado, foram realizadas intervenções de restauro que se apresentam inadequadas, interferindo na leitura harmônica do conjunto da pintura. A pintura do céu que cobre o ático foi a que mais sofreu com a intervenção de restauro anteriormente realizado. Praticamente toda a camada pictórica antiga foi substituída por uma pintura com tinta a base de PVA e executada sem qualquer procedimento tecnicamente aceitável.

Frente a este estado inicial, no mês de maio deu-se início às intervenções no forro da Capela dos Noviços. Até o momento, já foram concluídos os trabalhos de mobilização do canteiro, instalações provisórias e documentação gráfica e fotográfica, sendo que os primeiros testes micro-químicas ainda estão sendo analisados.

A estrutura metálica de andaimes foi diferencia da sacristia. Pelas proporções do ambiente optou-se por tubos articulados com braçadeiras de modo a permitir os desníveis dos assoalhos de trabalho e os recortes no retábulo. Também foram realizadas as instalações provisórias de fornecimento de energia elétrica para as ligações de força e iluminação. A documentação dos serviços seguiram os mesmos procedimentos aplicados na sacristia.

 

Img. 8 - Refixação das camadas pictóricas do forro da Sacristia.

Os testes e análises micro-químicas das amostras coletadas na camada pictórica do forro ainda estão em andamento. Esses trabalhos também estão sendo realizados pela parceria do CECI com o LABORARTE e com a ETEPAM.

Também teve início a limpeza e desinfecção do forro apenas na área voltada da camada pictórica. Este procedimento vem sendo realizado a seco, com o auxílio de pincéis largos de cerdas macias. A higienização no intradorso do forro pelo desvão do telhado só será possível após a confecção de uma cobertura provisória, quando, então, serão removidas as telhas para propiciar o acesso às áreas de trabalhos.

Por fim, cabe pontuar que os elementos da camada pictórica do forro, dos frisos e cimalhas que se encontram com descolamentos, desagregações ou outras fragilidades estão sendo re-fixados com cola coelho. O procedimento de aplicação deste material é antecedido pela utilização do álcool etílico hidratado (70%).

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