Ofício do Ferreiro Forjador

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Imagem: Forja de uma rosa
Edição de fotos: CECI/2007

Desde sua descoberta, o ferro passou a ser um dos elementos de grande interesse na Arquitetura.

Desde ferrolhos, aldravas, pregos e cravos até as grandes estruturas do século XIX e as mega-construções dos nossos dias, a arte de fundir e forjar o ferro guarda inúmeros segredos.

O ferreiro forjador é o artífice que trabalha o ferro ou outro metal, forjando-o, isto é, moldando-o à quente ou à frio com a finalidade de dar-lhe uma forma. Daí a expressão ferro forjado ou batido para o objeto que foi elaborado pelo ferreiro forjador.

A arte de forjar o ferro é totalmente diferente da atual atividade do serralheiro. O serralheiro trabalha o ferro cortando-o, serrando-o em vários pedaços para juntá-los pela solda. Diferentemente, o ferreiro forjador cortava e unia as partes através de samblagens, tarugos, cravos e rebites. Atualmente, a arte de forjar o ferro está restrita aos oficiais de conservação e restauro do patrimônio cultural e aos que se dedicam à fina arte da construção civil sofisticada ou do artesanato.

O fundidor é o artífice que se ocupa em fundir o ferro e outros metais com a finalidade de lhe forma e função, criando ligas para dar maior beleza ou resistência e longevidade às peças. É um ofício antiguíssimo que remonta aos primeiros momentos das civilizações.

 

Fig. 1 Forma em areia para fundição de uma tampa de bueiro da Companhia de Esgotos de Pernambuco, pela antiga Fundição Capunga (Recife). Fonte: CECI, aula de Gestão de Restauro – 2004.

Fig. 2 Forjamento de cravos Fonte: CECI – 2006.

No Brasil, durante o período Colonial, a metalurgia extrativa do ferro foi rudimentar e em pequena escala. A razão para isso era de cunho eminentemente econômico: a mão de obra existente era aplicada em setores mais produtivos (primeiro na indústria da cana de açúcar, depois, na extração do ouro), de modo que a importação do minério já transformado era corrente. Outra razão é que os utensílios de ferro constituíam um dos produtos de exportação da metrópole. Deste modo, o ferro vindo em barras ou como objetos manufaturados de Portugal e até de outros países europeus, constituía um comércio lucrativo.

No Brasil, praticamente até o século XIX, se utilizou um processo milenar de redução direta do minério por meio de carvão vegetal em fornos de pequenas dimensões. Estes fornos possuíam, geralmente, um metro de altura, onde o ar era soprado por meio de foles de couro, acionados por tração animal, manual, ou hidráulica. Esta foi a base técnica do ofício da Forja. Aproximadamente 15 quilos de metal reduzido ao estado sólido, entremeado ainda de escórias, eram retirados do forno e forjados prolongadamente na bigorna, para remoção da escória, daí o nome "forja" para o processo como um todo.

Em 1785, D. Maria I baixou o famoso "Decreto da Proibição das Manufaturas no Brasil". Só dez anos após se exclui a metalurgia do ferro da proibição.

 

Fig. 3 Grade (fundição) de sobrado à Rua do Bom Jesus no Recife. Fonte: Roberto Dantas, CECI – 2005.

Fig. 26 Grade (forja) do Aljube de Olinda, século XVIII. Fonte: Roberto Dantas, CECI – 2005.

A atividade metalúrgica no Brasil Colonial foi exercida pelos artífices ferreiros, caldeireiros, funileiros, latoeiros. A existência destes ofícios, de início, esteve atrelada à indústria açucareira. Machados, foices, arados, correntes e vários outros apetrechos, por exemplo, eram bens imprescindíveis e muito valiosos nos engenhos de açúcar. Era tarefa dos artesãos luso-brasileiros manter funcionando a arte. E, provavelmente, não podia ser outra mão-de-obra, como os escravos, por exemplo, porque se estaria dando meios a eles de se armarem.

José Wasth Rodrigues, em seu artigo “A casa de moradia no Brasil Antigo” , informa que a ferragem era um dos elementos mais curiosos da construção brasileira antiga, não pela riqueza e versatilidade, senão justamente pelos recursos sóbrios e estilo constante no que se afina com o resto.

O autor cita ainda que o ferro trabalhado, exuberante de folhagens e ornatos, enfim, a obra “artística” de forja não existiu no Brasil Colonial. Existia sim, a ferragem simples da casa, composta de espelhos e fechaduras, trincos, ferrolhos, aldravas, puxadores, dobradiças, argolas de bater e grades... Todos estes objetos e componentes construtivos reproduziam os modelos mais simples portugueses.

 

Fig. 5 Forno e sistema de forja catalã. Fonte: www.pmt.usp.br/notas/notas.htm, 2007.

Fig. 6 Escápula e dobradiça da Igreja da Sé Olinda. Fonte: Fonte, 2003.

À parte o exercício mais comum do ofício da forja existia outro, mais importante, do qual o governo metropolitano fazia questão de controlar – o da fundição. No caso pernambucano, o historiador Pereira da Costa dá notícia do estabelecimento de uma fundição em Olinda já no ano de 1611. O objetivo era produzir canhões, sinos e objetos de bronze. Costa dá informação sobre o cargo do oficial Domingos Rodrigues, nomeado por carta régia como Fundidor-mor do Brasil em 8 de novembro daquele mesmo ano . Informa ainda que em 1768 havia uma fundição no Recife, pertencente a Nicolau Coelho de Albuquerque,

como consta de um termo que assinou na Secretaria do Governo em 15 de janeiro daquele ano, pelo qual se obrigou a fundir no termo de três meses um sino de uma arroba e vinte e duas libras de metal para a igreja da Estância, cujo material já havia recebido...

A indústria e exploração do ferro foram liberadas a partir de 27 de maio de 1795, por Aviso do Reino, dirigido ao então governador da província. Porém, as oficinas deveriam pagar uma contribuição para fazer face à perda dos direitos que importavam as obras e o ferro vindos de Portugal, quer em bruto quer em barra. Sobre o assunto o governador expediu “as convenientes comunicações às câmaras municipais, por circular de 28 de julho daquele mesmo ano”.

É a partir da primeira metade do século XIX se implanta no Brasil uma série de empreendimentos ligados à produção do ferro em grande escala. Isto, evidentemente reduz a importância e praticamente extingue o ofício da forja nos moldes tradicionais.

Tabela 1 Empreendimentos de porte ligados à produção do ferro no século XIX

1815: fundição no Rio de Janeiro, de Theodoro de Macedo Freire.
1814-1817: fábrica de espingardas no porto militar de São Paulo, sob a direção de Daniel Muller.
1817: fundição de Cabrito, na Bahia.
1828: fundição no Recife, de Harrington e Stan.
1828: fundição de sinos do Rio de Janeiro, de Miguel Couto dos Santos.
1830: fundição do Arsenal de Marinha, no Rio de Janeiro.
1845: fundição de peças para a fábrica de tecidos "Todos os Santos", em Valença, BA.
1845: fábrica de instrumentos cirúrgicos, no Rio de Janeiro, de Daville.
1848: fundição em Santo Amaro, Bahia, de Thomas Russel.
1850: fábrica de implementos agrícolas em São Paulo, de G. Embliged.

Fig. 7 Fundição da Capunga de 1854 (E. Lucena S.A). Fonte: CECI, 2004.

Em 1829, ainda em Pernambuco, foi fundado por Harrington & Starr, na Rua da Aurora, Recife, a famosa “Fundição da Aurora”. De suas oficinas, marcando o grau de sofisticação e avanço técnico de seus trabalhadores, teria sido construída, em 1836, a primeira máquina a vapor fabricada na América Meridional, especialmente construída para o engenho Caraúna, em Jaboatão e pertencente ao coronel Domingos de Sousa Leão. Igualmente de suas oficinas, teriam saído os gradis que passaram compor tanto as fachadas dos sobrados, substituindo os muxarabis, quanto às novas praças cercadas que faziam a vez dos antigos largos e pátios.


Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco, responsável técnico
Prof. Dr. Roberto Antônio Dantas de Araújo, curador

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