A arquitetura

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O complexo franciscano de Olinda foi resultado de sucessivas adições e reformas, visto que foi formado por conjunto de blocos interligados. A melhor forma de se realizar uma análise da sua arquitetura é tomar como referência os blocos principais.

O claustro é o espaço principal do complexo, já que as outras unidades e espaços arquitetônicos gravitam em torno dele (Foto 1.11). É um espaço de meditação que possui origem nos monastérios medievais. Claramente inspirado em protótipos renascentistas, o claustro écercado por graciosas arcadas, de ordem toscana. As características desta colunata indicam que a construção do claustro não pode ser anterior ao século XVIII. Ele possui dimensões relativamente modestas e é marcado pela sobriedade e despojamento, embora suas proporções se mostram bastante refinadas.

Foto 1.11: Claustro
Foto 1.12: Fachada e torre da igreja
Foto 1.11: Claustro Foto 1.12: Fachada e torre da igreja

A fachada atual apresenta frontispício dividido horizontalmente em três partes: a primeira consiste na galilé, com colunas e arcadas; a segunda apresenta as três janelas do coro, de verga e com ornatos de cantaria; e na terceira apenas aparecem o frontão em volutas e o nicho central com imagem, encimado por pináculos e cruz (Foto 1.12). Verifica-se a existência de duas fases construtivas nesta fachada: uma que corresponde à galilé, e outra que corresponde aos andares superiores, fruto de reforma ou modernização posterior. A galilé, ou o nártex reentrante, foi uma adição à primitiva fachada, avançando sobre a rua. Com as obras de reconstrução iniciadas em meados do século XVIII, ela adquiriu a feição atual, incorporada ao corpo da igreja, com três grandes portas em arco. Há uma clara hierarquia e rigidez da arquitetura chã portuguesa. As aletas e volutas, entretanto, provêm um grande movimento que contrasta com a regularidade do conjunto e confere unidade entre os dois pavimentos superiores, quase queos transformando em um grande frontão. Os pináculos fecham a composição provendo um tom ascendente à fachada. A torre única é recuada da fachada e possui sineira em arco pleno, coroada por cúpulas de arestas com pináculo piramidal.O recuo da torre revela-se uma solução engenhosa na medida em que liberta o frontispício para ser totalmente simétrico.

A nave central possui planta retangular e pé-direito duplo. É uma nave única, com a capela-mor pouco profunda e mais estreita. O interior destaca-se pela ornamentação composta por painéis de azulejos e talha retratando cenas religiosas. Os altares colaterais, barrocos do final do século XVIII, emolduram o arco cruzeiro, que é pouco decorado (Foto 1.13). A capela-mor tem um teto abobadado, acompanhando o arco cruzeiro e as tribunas laterais. Acima da galilé e no começo da nave, encontra-se o coro apoiado em uma estrutura de madeira (Foto 1.14).

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Foto 1.13: Nave e altares laterais Foto 1.14: Nave e coro

A sacristia está localizada atrás da igreja, colocada transversalmente e ocupando toda a largura da nave central. Seu volume possui duas arcadas salientes ao corpo retangular e em uma delas se encontra um belo lavatório de mármore de Lioz. Uma das mais belas das construídas pelos franciscanos, sobretudo pela azulejaria e pelo magnífico forro, formado por octógonos nos quais se encaixam losangos que retratam frutas e plantas (Foto 1.15).

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Foto 1.15: Sacristia
Foto 1.16 Capela de São Roque

A capela de São Roque (Foto 1.16) foi construída perpendicularmente à nave central da igreja do convento, sendo ligada a ela por meio de um grande arco, inteiramente revestido de madeira entalhada. Essa maneira singular de relacionar os dois ambientes de culto é uma característica freqüente nos conventos franciscanos do Nordeste. O forro em artezoados impressiona pela beleza e harmonia das formas e desenhos.O conjunto de talha e pintura da capela possui uma unidade muito grande foi executado entre o final do século XVII e o início do século XVIII. O complexo da Ordem Terceira inclui ainda a sacristia dos terceiros, situada ao lado direito da Capela, uma Casa de Oração paralela à igreja da Ordem Primeira, uma sala para assembléias e reuniões, que possui dois andares e avança em direção à rua.

O bloco que contém a Capela de Santanna, ou da Portaria, e a biblioteca, finalizado em 1754, foi engastado no conjunto e feito com o intuito de se tornar a entrada principal do complexo. É um volume que se destaca por sua composição simétrica e seu formato cúbico. Possui cobertura em quatro águas com amplos beirais à sua volta. Emoldurada por largas pilastras de pedra, a fachada apresenta uma ortogonalidade austera. No térreo, existe a Capela de Santa Ana, que possui planta simétrica (Foto 1.17). Na parede ao fundo da sala está situado o altar de Santa Ana, em estilo barroco português. Ao redor de toda a sala há um belo painel de azulejos, provavelmente do século XVIII e uma admirável pintura do forro. A biblioteca principal localiza-se no segundo pavimento, acima da Capela da Portaria. Seu teto é contornado por elegante cornija, sendo todo composto por painéis a óleo, tendo com centro um quadro da Virgem.

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Foto 1.17: Capela de Santanna Foto 1.18: Capela do Capítulo

A Capela do Capítulo abre-se para o claustro e, apesar de pequena, é uma das mais belas dos conventos franciscanos (Foto 1.18).Ela é revestida internamente por azulejos que remontam à fase da reconstrução do convento após os holandeses, provavelmente em torno de 1660. Na talha do retábulo dessa sala capitular ainda não está presente a exuberante decoração barroca e ainda se pode perceber a marcação da estrutura arquitetônica. Em suma, no interior da sala, talhas, azulejos e as pinturas do forro de madeira harmonizam-se de forma sublime, conferindo um exemplo marcante do final do século XVII.

Locado rente à rua e ao lado do bloco da portaria, está o maciço bloco das celas conventuais. (Foto 1.19). Originalmente em forma de U, hoje tem a forma de um quadrado, quando a face leste foi construída em meados do século XVIII. Suas alas são cobertas por um telhado em duas águas. Como o bloco da portaria, também possui suas esquinas marcadas por largas e robustas pilastras. A fachada do bloco apresenta, no térreo, uma serie de óculos e, nos dois andares superiores, janelas de vergas retas, estreitas e altas. Possui um robusto embasamento de pedra que acompanha a linha do piso do bloco da portaria e da igreja.

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Foto 1.19: Bloco conventual Foto 1.20: Terraço mirante com cisterna e relógio de sol

A partir da colocação da laje de cobertura da cisterna, criou-se um terraço a céu aberto, conformado por duas robustas paredes caiadas do volume conventual, formando um dos espaços mais propícios para a meditação e recolhimento do convento (Foto 1.20). É um espécie de claustro, com duas de suas faces abertas para o verde da encosta e para o azul do mar e do céu, elementos que atestam o caráter divino.

O adro é um dos mais marcantes elementos de integração entre a arquitetura do Conjunto e o sítio histórico (Foto 1.21). Ele é um elemento plástico urbano e não arquitetônico, porque é um espaço aberto, tirando partido da topografia e tomando a or um triângulo com base na da reentrância da fachada do Conjunto (fachada da igreja e do bloco da portaria) e pelo ponto focal criado pelo cruzeiro

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Foto 1.21: Adro na década de 1980

O Complexo Franciscano de Olinda é composto por um conjunto de blocos que se ligam internamente e se adaptam aos declives do terreno. O programa franciscano era uma forma matriz com inúmeras possibilidades de disposição e combinação, sabiamente adaptadas às circunstâncias locais. Localizado em sítio exclusivo, um morro com declive acentuado em direção ao mar, o núcleo inicial do complexo foi construído em um dos poucos pequenos platôs (Foto 1.22). A partir de então, foi crescendo por adição e reformas em uma perfeita adaptação aos acidentes do terreno. Nessa adaptação do conjunto ao sítio, estabelece-se uma relação poética com a paisagem urbana e natural (Foto 1.23).

Foto 1.22: Vista geral, década de 1970
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Foto 1.22: Vista geral, década de 1970 Foto 1.23: Fachada oeste

Embora esses elementos arquitetônicos tivessem origem na vida monástica medieval, a flexibilidade com que foram empregados confere caráter único aos conventos franciscanos no Brasil. A singularidade desse conjunto, como de outros conjuntos franciscanos, reside menos em seus elementos tipológicos e mais na forma como eles foram articulados entre si e distribuídos no espaço. Em outras palavras, o que torna este exemplar da Escola Francisna único é articulação dos espaços e volumes.

Por fim, restam a simplicidade e a sinceridade da arquitetura franciscana. Em vários pontos do convento, notam-se essas respostas claras e francas, como nos vigamentos de madeira a repousarem diretamente sobre o arenito das colunas toscanas do claustro; no azul cobalto dos painéis de azulejos, em contraste com as calmas paredes caiadas; nos grandes beirais que geram ambientes sombreados; nas pequenas aberturas retangulares a emoldurarem a paisagem; nas portadas e cercaduras de cantaria, que delimitam as janelas, e na simples articulação da arcada renascentista do claustro. A originalidade e o valor estão na simplicidade, unidade e coesão dos elementos arquitetônicos e espaciais. Essas características reforçam a expressão franciscana da língua portuguesa, como termo que indica simplicidade, franqueza e abnegação, características essas presentes nesse Conjunto.

 
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