Casa de Chico Mendes - Xapuri, Acre

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O imóvel encontra-se localizado, na cidade de Xapuri (AC), na Rua Batista de Moraes, 487 , numa arruado de casas semelhantes em formas e sistemas construtivos.
Segundo Costa , a história de Xapuri mescla-se com a do Acre, sendo um capítulo especial desta. Assim, também, a casa objeto da presente licitação segue o estilo das construções “modernas”  acreanas e até da própria arquitetura vernácula da Amazônia. A planta traduz a simplicidade da construção, modelada com os espaços mais básicos para uma moradia: quatro cômodos, formados por sala, dois quartos e cozinha, interligados por um corredor lateral.
Esse partido de planta remonta à “primeira hora da colonização do Brasil”, cujo tipo de planta recebeu as denominações de meia-morada ou morada inteira. Essa última se configurava quando se rebatia as alcovas (quartos de dormir), tornando o corredor o eixo central, dividindo a casa em duas partes distintas área social (sala) e área íntima (quartos e sala de viver/cozinha) .
casa_vista1aA casa onde Chico Mendes, lider seringueiro morto em dezembro de 1988, viveu seus últimos momentos encontra-se localizada na cidade de Xapuri (AC), na Rua Batista de Moraes, 487(1), num arruado de casas semelhantes em formas e sistemas construtivos.
Segundo Costa (2), a história de Xapuri mescla-se com a do Acre, sendo um capítulo especial desta. Assim, também, a casa segue o estilo das construções “modernas” acreanas (3) e até da própria arquitetura vernácula da Amazônia. A planta traduz a simplicidade da construção, modelada com os espaços mais básicos para uma moradia: quatro cômodos, formados por sala, dois quartos e cozinha, interligados por um corredor lateral. Esse partido de planta remonta à “primeira hora da colonização do Brasil”, cujo tipo de planta recebeu as denominações de meia-morada ou morada inteira. Essa última se configurava quando se rebatia as alcovas (quartos de dormir), tornando o corredor o eixo central, dividindo a casa em duas partes distintas área social (sala) e área íntima (quartos e sala de viver/cozinha) (4).
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Para quem chega pela primeira vez à Casa de Chico Mendes sem o conhecimento do peso de sua história, a sua forma singela pode remeter o observador a uma memória lúdica de infância. Sua forma lembra os desenhos de representação de casas feitas pelas crianças nos seus primeiros contatos com a representação da casa, do lar.
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Vistas frontal e frontal-lateral da Casa de Chico Mendes. Fontes: Priscila Mesquita, 2012 e Tinoco, set. 2014.
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Desenhos infantis de representação de casa, lar. Fonte: Google, usando indexador: “casa desenho infantil”, dez. 2014.
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Seja como for, tanto esta como as demais casas em madeiras existentes na região fazem parte da memória coletiva do Acre, devendo ser objeto de conservação. Neste sentido, pude observar durante a visita que a casa já recebeu intervenções anteriores tais como: repinturas, substituição de algumas madeiras estruturais e de vedações, pátina no piso, calçamento e grama ao redor da casa, embasamento em alvenaria de tijolos numa tentativa frustrante de se evitar umidades e infiltrações nos esteios de madeira.
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Vista geral da Rua Batista de Moraes, na cidade de Xapuri, Acre. Fonte: Tinoco, dez. 2014.
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A planta da casa denota que os espaços estão preservados assim como, provavelmente, os objetos que compõem a mobília. Entretanto, pelo aspecto dos tijolos do anexo ao fundo, onde se localiza o  banheiro, talvez a edícula não seja contemporânea à construção da casa, demonstrando ser bem posterior, conforme técnica construtiva (vejam-se as imagens adiante).
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A estrutura da planta da casa é constituída por esteios que correspondem às fundações, barrotes , que servem tanto de apoio ao embasamento como das tábuas do assoalho. Sobre esse entarugamento (6) como é denominado na região, foi armada a estrutura de fixação das tábuas das paredes e das aberturas dos vãos de portas e janelas.
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As vedações (paredes) mostram-se bem conservadas no geral. São de tábuas da região, industrializadas, frisadas, fixadas verticalmente entre si num sistema  de encaixe macho-fêmea, pregadas numa estrutura de caibros (pernamancas) (7) com pregos industrializados. As paredes que separam os ambientes, delineando os espaços da habitação, chegam apenas à altura da linha do frechal das tesouras do telhado. Associada a ausência de forros nos ambientes e à fartura de vãos de janelas e portas, essa técnica construtiva de características regionais, oferece à moradia o que há de melhor conforto térmico. Embora a casa seja muito pequena, as sensações de exiguidade e mesquinhes de espaços não são evidentes, pois o grande vão do telhado que abarca toda a casa oferece ao morador as alturas de um espaço de “cúpula” piramidal maior que a escala humana.
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Paredes da cozinha. Fonete: Tinoco, dez. 2014
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Os pisos (assoalhos) são de tábuas corridas, assentes em barrotes sobre estrutura de esteios que mantêm a casa elevada do nível do terreno.
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Esteios e estrutura do piso. Fonte: Tinoco, dez. 2014
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O dimensionamento das peças é proporcional às exigências das cargas desse tipo de habitação unifamiliar. Denotam antes um conhecimento de construção que ousadia pela ignorância das técnicas. Com exceção dos esteios, todo o madeiramento é de origem industrial, ou seja, madeira serrada. Apenas os esteios têm origem na lavra de golpes de machado, fincados no solo em espaçamentos regulares. Essa estrutura tipo “gaiola” deixa a casa nivelada, com uma cota mediana de ± 40 cm acima do solo. Observei que existem madeiras “guardadas” no desvão do embasamento. Isso é perigoso, porque pode se tornar um foco de insetos xilófagos.
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Outro detalhe de risco é a alvenaria construída ao redor do embasamento para, provavelmente, evitar umidades e águas nesse desvão. Observei que, ao contrário desse desejo, a alvenaria acarretou o apodrecimento da base das tábuas das vedações externas frontal e laterais. Essa alvenaria deve ser retirada para resgate histórico do componente construtivo e para eliminar a causa imediata das degradações.
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Degradação das tábuas das vedações externas. Fonte: Tinoco, dez. 2014
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O telhado da casa é de duas águas com estrutura e trama de madeira serrada, coberta com telhas cerâmicas planas, tipo francesa. A inclinação é bastante acentuada (45o), mas própria para o assentamento e a boa funcionalidade desse tipo de telha. As tesouras lembram em forma as do tipo paládio e têm seções esbeltas como todo o madeiramento do telhado.  A seção exígua da cumeeira exigiu a inserção de mãos-de-força no sistema estrutural, colocadas em diagonal às linhas de nível das tesouras.
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Estrutura do telhado. Fonte: Desenho de Priscila Mesquita, 2012 e foto de Tinoco, dez. 2014.
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Muito estranha é a seção das terças que correspondem à seção de um caibro do conjunto da trama – fica a dúvida: de época da construção ou da reforma (restauro)? Neste sentido, são, aparentemente, anômalos os calços (pedaços de madeira) colocados sobre as pernas das tesouras como apoio às frágeis terças.
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As telhas cerâmicas utilizadas na coberta são peculiares e valorosos indicadores de autenticidade dos materiais aplicados na casa. As telhas trazem impressas, em alto-relevo, de um lado, o nome da cerâmica: Mira Sol, e do outro a inscrição:  Xapuri - Acre. Indicando o nome da indústria cerâmica e a cidade da produção.
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Telha de coberta produzida em olaria de Xapuri. Fonte: dez. 2014.
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Os vãos de portas e janelas são fechados com esquadrias as mais singelas em termos de sistemas construtivos. São em tabuas serradas, justapostas e armadas por fixas ou travessas que servem também de apoio às dobradiças. O uso de pregos eliminou os encaixes e outras sambladuras funcionais ou ornamentais.
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A casa é servida de energia elétrica e água, através de abastecimentos de redes públicas. Não há mais nenhum sinal visível nas paredes da época em que, provavelmente, haviam lamparinas de querosene.  As repinturas podem ter apagado esses registros, que, talvez, prospecções apuradas venham revelar. A entrada da energia elétrica não é mais a original, conforme indicam os componentes do ponto de entrega pela Eletroacre − Companhia de Eletricidade do Acre e a rede elétrica interna. Não foi possível observar um e outro trechos com fios do tipo Vulcan (8) , recobertos por tecido de algodão rústico (cambraia) com ligamentos em sarja (9), comuns no Brasil até o início da década de 1970. Os existentes são revestidos em PVC. Também não há registros visíveis de cleats de louça (porcelana). A rede interna é muito precária e coloca a casa em risco de sinistro por incêndio, provocado por curto-circuito.
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Redes atuais de entrada e distribuição da energia elétrica. Fonte: Tinoco, dez. 2014
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O anexo ao fundo da casa é visivelmente mais recente que a casa. Construído em alvenaria de tijolos cerâmicos de oito furos, revestido com reboco externamente apenas na frente, é agressivamente incompatível com a história do lugar. Embora a existência de sanitários masculino e feminino sejam espaços funcionais indispensáveis ao bem público, a forma e a estética devem ser suficientemente discretas  para se evitar conflitos no foco das percepções dos observadores. Sem dúvida, um reestudo sobre esse anexo é condição para a garantia da autenticidade e integridade do bem cultural.
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É necessário saber (averiguações por pesquisas) sobre a autenticidade do sequeiro de roupas (giral) ao lado do anexo. Também é preciso saber sobre a alvenaria de base desse anexo, pois os materiais cerâmicos alvenaria das fundações são distintos das alvenarias de elevação. Verifiquei diferenças sensíveis entre suas temporalidades.
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Anexo (sanitários). Fonte: Tinoco, dez. 2014
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Uma ausência que observei foi com relação ao giral de apoio da cozinha, que deveria estar fixado no parapeito da janela da cozinha à semelhança do existente na casa vizinha. Trata-se de um componente construtivo tradicional da arquitetura vernácula da região.
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Registros de um giral na janela da cozinha. Giral existente na casa vizinha. Fonte: Tinoco, dez. 2014
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Concluindo as observações dessa visita, pontuo sobre o registro do sangue do Chico Mendes na parede lateral à porta da cozinha. Conforme a história, a mancha de avermelhada neste trecho de parede é sangue do líder seringueiro que respingou ao ser alvejado na noite fatídica de 22 de dezembro de 1988, uma semana após completar 44 anos de idade, com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos, quando saía de casa para tomar banho (10). É fundamental se comprovar a autenticidade desse registro através de comparações com a ficha da perícia técnica que instruiu o processo criminal com uma prospecção não destrutiva, através de difratometria de raios X portátil (11).
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Chico Mendes. Parede da cozinha com marcas de sangue. Fontes: http://jornalggn.com.br/tag/blogs/ chico-mendes e Tinoco, dez. 2014
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OBSERVAÇÕES FINAIS
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Chico Mendes em frente a sua casa em Xapuri. Fonte: http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/25-anos-sem-chico-mendes-1140.html. Disponível em: 26 set. 2014
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Em razão dos valores de significância histórica desse imóvel e pela vulnerabilidade dos seus materiais construtivos, verifico que a conduta das intervenções a serem realizadas deve se respaldar na garantia da autenticidade e integridade da antiga moradia do Chico Mendes.
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As opções devem priorizar as ações de resgate histórico pela natureza do bem cultural, a utilização dos materiais tradicionais e, sobretudo,  a manutenção dos componentes construtivos indicadores da autenticidade do lugar.
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Jorge Eduardo Lucena Tinoco, arquiteto
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Notas:
(1) Esse número é o que se encontra numa placa de metal revestida em ágata. Diverge do número registrado no parecer do processo de tombamento do imóvel: nº 10, Setor 01, Distrito01, Lote 290, Bairro Centro (Xapuri-AC). Disponível em:   http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do;jsessionid=A9848742E1BF4ADB412F88C F18743426?id=893. Acesso em: set. 2014.
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(2) COSTA, Ana Lúcia, Madeira que Cupim não Rói – Xapuri em Arquitetura 1913 -1945, p. 59. Assoc. Brasil. das Editoras Universitárias, Gráfica Dois Irmão, Rio Branco, 2010.
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(3) NEVES, Marlúcia C. de O., A Colocação e a Casa do Seringueiro – Exemplo de Arquitetura Vernácula da Amazônia. Dissertação de Mestrado, Tribunal de Justiça do Acre, Rio Branco, 2007.
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(4) TINOCO, Jorge E. L., Olinda: Um Projeto de Restauração e Reutilização Residencial, Revista Módulo no 68, pág. 48, Rio de Janeiro, editor Oscar Niemeyer - 1982.
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(5) NEVES, ob. cit., Glossário, p. 202.
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(6) Idem, ibidem, p. 204.
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(7) Regionalismo da palavra caibro de madeira.
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(8) Fio de cobre isolado com borracha vulcanizada. Segundo o Manual do Eletricista (p. 339), a borracha era cautchu, uma substância elástica, resultante da coagulação de látex de diversas plantas com adição de enxofre para lhe dar mais resistência.  Como o enxofre ataca o cobre, a camada de estanho aplicada sobre o metal, além de protegê-lo contra a aderência da borracha, evitava o ataque da oxidação. Manual do Electricista, s/autor, BIP – Biblioteca de Instrução Profissional, Editora Livrarias Aillaud e Bertrand, 5ª edição, Lisboa, s/d.
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(9) RICHTER, Herbert. P., Técnica das Instalações Elétricas,  (página 71). A cambraia de algodão é um tecido pesado em ligamento sarja com fios de cores contrastantes. A sarja é uma estrutura ou padrão de tecelagem que possui repetição mínima de três fios de urdume e trama, e distingue-se por seu trançado diagonal bem definida. O entrelaçamento em diagonal possibilita maleabilidade e resiliência aos tecidos. O tecido em ligamento sarja é frequentemente mais firme do que o tecido em ligamento tela, tendo menos tendência a se sujar, apesar de ser de lavagem mais difícil (MIRADOR).
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(10) VENTURA, Zuenir, Chico Mendes - Crime e Castigo. Editora Companhia das Letras, 248 p., São Paulo, 2003.
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(11) O uso desse equipamento pode ser viabilizado institucionalmente, pois só tenho conhecimento da existência de um na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, localizado no Laboratório de Ciência da Conservação − LACICOR.
 

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