É Feito de Taipa – Uma viagem de prospecção e sensibilização cultural

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O CECI, através dos pesquisadores Prof. D.Phil Ney Dantas e a produtora cultural Maria Pessoa, com o patrocínio do Banco do Norde do Brasil, concluiu o projeto É Feito de Taipa – Uma viagem de prospecção e sensibilização cultural.

Os principais momentos do projeto foram em campo, sendo em novembro de 2009 realizada uma viagem de prospecção e sensibilização da arte e dos saberes tradicionais ligados à cultura da Taipa no sertão nordestino. Escolheu-se o município de Santa Maria da Boa Vista, no Sertão do São Francisco, distante 750 km do Recife como cidade pólo para o início da documentação. Esta escolha baseou-se em informações e pesquisas anteriores que apontaram uma forte presença da técnica de construção em taipa nos seus arredores da cidade.

Durante dez dias a equipe composta por um arquiteto, um diretor de vídeo e um fotógrafo realizou investigações e documentou a arte e os saberes tradicionais ligados à cultura da Taipa na região. Foram identificados, entrevistados, filmados e fotografados os mestres taipeiros e as manifestações culturais relacionadas aos modos de fazer da cultura da taipa. Procurou-se, num processo de anamnese, resgatar as lembranças daqueles que ainda possuem a memória e o domínio dos seus modos de fazer.

 

Porto fluvial – Santa Maria da Boa Vista

A taipa é um produto cultural, síntese de histórias e conhecimentos acumulados, resultado da reação necessária e suficiente do homem às hostilidades do meio em que vive e do material que tem a sua disposição. Ao redor da cidade de Santa Maria a cultura da taipa ainda resiste, mas muito de seus saberes e tradições estão se perdendo. A maioria dos mestres já morreu e o pouco que resta de conhecimento do modo de fazer está na memória dos filhos idosos.

 

Mestres Taipeiros

Saberes e fazeres

A memória agoniza

As taipas de mão e de pilão são técnicas herdadas dos colonizadores, escravos e imigrantes e ainda são empregadas, nas suas variações, em diversas regiões brasileiras com as seguintes vantagens:

1. A terra crua regula a umidade ambiental: o barro possui a capacidade de absorver e perder mais rapidamente a umidade que os demais materiais de construção;

2. A terra armazena calor: como outros materiais densos como as alvenarias de pedra, o barro armazena o calor durante sua exposição aos raios solares e perde-o lentamente quando a temperatura externa estiver baixa;

3. As construções com terra crua economizam muita energia e praticamente não contaminam o ambiente, pois para prepará-las necessita-se de 1 a 2% da energia despendida com uma construção similar com concreto armado ou tijolos cozidos;

4. O processo é totalmente reciclável: as construções com solo podem ser demolidas e reaproveitadas múltiplas vezes. Basta fragmentar e voltar ao processo de preparo da massa de terra.

A taipa é um material apaixonante. Tem uma nobreza histórica. As casas e igrejas coloniais brasileiras foram feitas de taipa de pilão, há ainda hoje na Alemanha casas em taipa construídas no século 13. Resquícios desta técnica foram encontrados em um casario em ruínas ao redor da igreja matriz. Note-se o uso da palha de arroz para dar mais resistência ao tijolo de adobe.

 

Detalhe alvenaria de adobe

Aproximadamente final do sec.XIX

A técnica vem sendo conservada pela tradição oral, mantendo seu conhecimento no meio rural, com perdas de suas características, qualidades e possibilidades futuras. O preconceito alimentado pelas políticas de erradicação somado à industrialização da construção civil determinaram o declínio deste tradicional processo de construção, que foi definitivamente atingido pela má escolha dos materiais, e no progressivo abandono e esquecimento das práticas de sua feitura. Com ela morrem também outras técnicas associadas como a fundição manual.

 

Casa de taipa típica da região

Fogão a lenha e forja

Embora seja uma técnica que resiste até a terremotos a taipa resiste pelos que nela vivem e não possuem outras escolhas. Se escolha tivessem, certamente ela já teria desaparecido.

 

Sem opção de morar melhor

Taipa típica da região

Apenas em alguns poucos casos a taipa é percebida como a escolha ideal. Como os índios e negros do século XIX ela se refugia nos grotões, resiste e se preserva no meio da caatinga brava e teimosa enquanto arquitetura do possível com seus belos detalhes construtivos.

 

Preparando o barro

Aplicação na grelha de madeira

 

Enchendo a parede


Detalhe da terça amarrada com palha

Detalhe do armador de rede

Vale salientar que o CECI, através do curso de Gestão e Prática de Obras de Conservação e Restauro do Patrimônio Cultural - Gestão de Restauro, estuda e difunde as técnicas de execução das taipas de mão e pilão. Nele os participantes têm oportunidade de anotar e de experimentar com a mão no barro essa técnica tradicional de construção. Sobre a taipa, veja também no CECI em Textos para Discussão o artigo: Técnicas Tradicionais - A Terra Crua como Material de Construção - Um Método de Ensino à Distância .