Viagem de Estudos à Minas Gerais

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A viagem de estudos da turma da 8ª edição do Curso de Gestão e Prática de Obras de Conservação e Restauro do Patrimônio Cultural foi realizada no período de 24 a 28/novembro/2008 tendo sido visitadas as cidades históricas mineiras além da capital Belo Horizonte.

Foram cinco dias de visitas à instituições e canteiros de obras, orientadas pelos engenheiros, arquitetos e restauradores responsáveis pelos projetos e monitoradas pela coordenação do curso.

A partir da edição de 2008, o CECI possibilitou a viagem de estudos aos alunos que participaram das edições passadas. Assim, além dos alunos da 8a edição, o grupo contou com as presenças de ex-alunos das edições de 2006 e 2007. Todos foram acompanhados pelo professor-coordenador e arquiteto André Pina. Também acompanharam o grupo Hamilton Martins, professor-instrutor do ofício da cantaria, e a arquiteta Vânia Cavalcanti do Escritório Técnico de Olinda da 5ª SR do IPHAN.

A viagem de estudos foi planejada para que os alunos também tivessem contato com intervenções em concreto armado na capital Belo Horizonte, além das intervenções em edificações construídas com as demais técnicas tradicionais nas cidades de Ouro Preto, Mariana e Tiradentes.

Belo Horizonte. Foto da www.trekearth.com

A programação teve início no dia 24/nov em Belo Horizonte. O primeiro encontro foi pela manhã, na sede da 13ª SR do IPHAN. Essa Superintendência Regional está instalada no imóvel conhecido como a Casa do Conde, construído em 1897, e que foi recém-restaurado e adaptado para receber a instituição. A Casa do Conde de Santa Marinha, localiza-se na Rua Januária, nº 130, bairro Floresta, no conjunto da Praça da Estação. Como o IPHAN ainda estava de mudança para o imóvel, não foi possível ser feita uma visita monitorada, mas foi o grupo pode observar e discutir sobre as intervenções de restauro realizadas na casa.

Lagoa da Pampulha, Belo Horizonte. Imagem do Google Earth

No auditório da 13ª SR do IPHAN, ainda improvisado, foram realizadas duas palestras: a primeira sobre a restauração da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, pelo engenheiro Sergio Fagundes, do IPHAN-MG, que foi finalizada com uma visita ao monumento. A segunda palestra versou sobre o uso de pára-raios em monumentos, realizada pelo engenheiro Leonardo Barreto de Oliveira, superintendente da 13ª SR/IPHAN. Este assunto ainda não tem literatura específica e sua discussão é muito recente no Brasil. Essa palestra, intitulada "Sistemas de Proteção Contra Descargas Atmosféricas Destinados a Edificações Históricas - o Desafio de Compatibilizar Segurança e Estética", mostrou a fenomenologia dos raios, os tipos de descargas em edificações e os danos que eles provocam, os tipos de sistemas de pára-raios, a proibição do uso dos pára-raios radioativos, a pouca eficácia de proteção do sistema Franklin, o sistema de Gaiola de Faraday e os exemplos das instalações de pára-raios realizadas nas Igrejas de N S do Carmo, em Mariana, no Castelo Garcia d’Ávila, em Salvador, no Palácio do Governador, atual Escola de Minas e no Museu da Inconfidência, ambos de Ouro Preto.

No mesmo dia foi realizada a visita à Igreja de São Francisco de Assis, que faz parte do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da Pampulha, projetado por Oscar Niemeyer durante a gestão de Juscelino Kubitscheck na Prefeitura de Belo Horizonte. Também fazem parte do conjunto o antigo Cassino, hoje Museu de Arte, a Casa do Baile e o Iate Tênis Clube. A igreja foi construída de 1943 a 1945 e só foi consagrada pela Cúria em 1959, devido a polêmica que gerou por sua arquitetura arrojada em curvas contrapondo-se à arquitetura retilínea que até então predominava. Também, segundo a interpretação da Igreja Católica à época, os painéis de Portinari, apresentava figuras ofensivas a um templo", principalmente o que compõe o altar.

Grupo do CECI com o Engenheiro Sergio Fagundes (1ª à esquerda, em pé), em frente à Igreja de São Francisco Xavier, na Pampulha, Belo Horizonte. Foto: Mateus Morbeck

A Igreja da Pampulha foi construída em concreto armado, com linhas barrocas em formas abobadadas e revestido externamente com mosaicos assinados por Candido Portinari, também autor dos 14 painéis da via sacra e do altar, complementada pelo batistério decorado por 4 quadros em bronze assinados por Alfredo Ceschiatti e pelos jardins de Roberto Burle Marx. É um dos principais monumentos de Belo Horizonte e um marco da arquitetura moderna brasileira. Foi tombada com o conjunto da Pampulha pelo IEPHA-MG em 1984 e pelo IPHAN em 1997. A restauração foi realizada pelo IEPHA com fiscalização do IPHAN. Na visita, o grupo de alunos pode observar os problemas encontrados na estrutura em concreto armado e as soluções adotadas, conforme a apresentação na palestra de Sergio Fagundes.

A primeira restauração da Pampulha foi executada em 1990, para resolver problemas de infiltrações que estava deteriorando as pinturas internas. Naquela ocasião foram realizados serviços de tratamento das juntas, regularização da estrutura com tijolos leves, impermeabilização da casca, re-confecção parcial do revestimento e reposição do mosaico original; em 2000, a edificação não apresentava problemas de infiltração, mas a casca mostrava fissuras generalizadas em toda sua extensão; foram realizados ensaios não destrutivos nas estruturas em concreto armado, detalhamento das fissuras, extraídos corpos de prova e realizadas sondagens nas fundações. Verificou-se então que as fissuras eram superficiais e restritas ao revestimento, provocadas por comportamentos termodinâmicos diferentes. A solução adotada foi remover as seis camadas de revestimento existentes sobre o concreto armado, incluindo o mosaico original. A estrutura recebeu uma terceira junta de dilatação, prevista no projeto original e até então não executada, para minimizar os efeitos termodinâmicos. Depois, sobre o concreto original, a casca foi reconstituída com micro concreto, e foram aplicadas uma camada de impermeabilização flexível e uma camada de argamassa colante. Por fim, foram reaplicados os mosaicos originais e novos, para completar trechos destruídos pelas fissuras, procurando manter a cor e a característica do assentamento. Com olhar atento, dá para perceber as diferenças entre os mosaicos novos e os antigos.

Sobre essa intervenção nessa Igreja, os alunos questionaram a metodologia utilizada que comprometeu a autenticidade da edificação, por ter alterado as características originais da estrutura, da vedação da casca de concreto e por não se ter conseguido uma perfeita substituição dos mosaicos, ficando a dúvida se não havia outra solução para resolver os problemas das fissuras, já que não mais existiam problemas estruturais.

Após a visita à Igreja da Pampulha, o engenheiro Sergio Fagundes encaminhou os alunos para uma visita às obras que estão sendo realizadas na Casa de Juscelino Kubitscheck, imóvel próximo, também na orla da Lagoa da Pampulha. A chamada Casa de Juscelino, também de autoria de Oscar Niemeyer foi construída em 1943, para ser a residência do então prefeito de Belo Horizonte. Embora, normalmente, não seja citada como pertencente ao Conjunto da Pampulha, a casa foi concebida com a idéia de estimular a ocupação da Pampulha e servir de modelo arquitetônico.

A casa, moderna para a época, possui dois painéis, um de Alfredo Volpi e outro de Paulo Werneck. Especula-se que hoje em dia Niemeyer nega a autoria desse projeto. Juscelino vendeu a casa em 1956, e em 2008 a Prefeitura de Belo Horizonte a desapropriou amigavelmente para a instalação de um museu-casa, inclusive com o mobiliário e objetos da casa. A obra está sendo executada pela Construtora Biapó, contratada pela Prefeitura de Belo Horizonte. Foi uma visita fora da programação, mas muito rica por sua especificidade e pelos detalhes. Os alunos foram bem recebidos por Wagner Mathias de Sousa, responsável pela obra, que segue fielmente o plano original, não havendo alterações da tipologia e estrutura da casa.

Visita à Casa de JK, Pampulha, Belo Horizonte – MG. Foto: Mateus Morbeck

Na parte da tarde do dia 24/nov, os alunos foram recebidos pela arquiteta Roberta Magalhães, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA/MG, na obra de restauração do imóvel situado na Rua Bahia nº 1.149, esquina com a Rua Bernardo Guimarães, Centro. O imóvel foi construído em 1914 em estilo neo-gótico. Nele funcionou o Conselho Deliberativo da Capital, a Câmara Municipal e posteriormente o Museu de Mineralogia. Desde 1997 abriga o Centro Cultural de Belo Horizonte. Seus grandes salões, alto pé-direito e o estilo ‘neo-gótico português’ presente em todo o edifício faz o observador pensar que se encontra no interior de uma igreja. No momento, o imóvel recebe nova intervenção de restauração e de adaptação para as novas atividades culturais. Os maiores problemas das obras foram encontrados no térreo que, por se tratar de rua em ladeira, parte do nível desse piso fica abaixo ao da rua, gerando problemas de acúmulo de águas do lençol freático e de drenagem, com comprometimento das fundações, além da trepidação causada pelo trânsito de veículos. Observou-se que apesar de citarem a preocupação com o uso da argamassa de cal, o cimento foi largamente usado na restauração com a justificativa da necessidade de uma argamassa "mais resistente".

Terminadas as visitas em Belo Horizonte, o grupo de alunos, ex-alunos e professores partiu para a cidade de Ouro Preto. As atividades nessa cidade iniciaram-se na manhã do dia 25/nov, com a visita à sede do Núcleo de Restauração e Conservação da Escola de Arte Rodrigo de Melo Franco de Andrade – NCR-EARMFA, da Escola de Arte de Ouro Preto – FAOP, situada na Rua Getulio Vargas, nº 185, Rosário. A restauradora Flávia Andréa de Siqueira Dias recepcionou o grupo e propiciou uma visita monitorada pelos ateliers do NRC. Primeiro, o atelier de restauração cromática de painéis, onde foi possível observar as técnicas utilizadas e as práticas do alunado.

Alunos observam os serviços de reintegração cromática em painéis no Núcleo de restauração e Conservação da FAOP, Ouro Preto, MG. Foto: Mateus Morbeck

Em seguida Flávia apresentou o atelier de conservação e restauração de pintura sobre cavalete, onde o Prof. Silvio Luis Rocha Vianna de Oliveira e seus alunos, em plena aula, mostrou os trabalhos em andamento e tirou todas as dúvidas do grupo do CECI.

Prof. Silvio Oliveira explica aos alunos a metodologia utilizada na restauração de tela, no
Núcleo de restauração e Conservação da FAOP, Ouro Preto, MG. Foto: Fernanda Craveiro

O próximo atelier foi o de conservação e restauração de escultura policromada no qual Flávia é a instrutora. Como não havia aula nesse atelier no momento da visita foi possível ao grupo observar com mais tranqüilidade as peças em restauração, e as orientações da restauradora sobre as técnicas e metodologias utilizadas.

Profa. Flávia Andréa explica os procedimentos para restauração de imagens de madeira, no atelier de restauração de esculturas. Foto: Mateus Morbeck

O último atelier visitado foi o recém inaugurado de conservação e restauração de papel, instalado com equipamentos de última geração. Foi importante verificar que a organização dos ateliers do NCR, os materiais utilizados ali utilizados, as metodologias e técnicas empregadas na limpeza e consolidação das peças estão em ressonância com as que o CECI utiliza, exceto nas técnicas de reintegração de pinturas que depende da interpretação subjetiva de cada restaurador, segundo observações dos alunos da 8ª edição.

Alunos observam gravuras restauradas no atelier de restauração de papel. Foto: André Pina

As atividades na EARMFA terminaram com a visita ao recém restaurado Passo da Flagelação, também conhecido como Passo da Coluna, localizado próximo à sede do NRC. As capelas dos Passos da Paixão em Ouro Preto foram edificadas pela Irmandade de Nosso Senhor dos Passos no final do século XVIII. O Passo da Coluna foi reedificado em 1816 pelo proprietário da casa a qual o Passo está anexo. A visita ao Passo da Coluna foi orientada pela restauradora Flávia Andréa, que estava acompanhada por três de seus alunos. Foram observados os trabalhos de restauração da imagem do Senhor atado na coluna e de consolidação dos painéis policromados do pequeno altar.

Alunos em frente ao Passo da Coluna, Ouro Preto. Foto: André Pina

Após o NRC da EARMFA, o grupo dirigiu-se ao Campus do Centro Federal de Educação Tecnológica de Ouro Preto CEFET–OP, para a segunda atividade do dia, no Núcleo de Ofícios dessa instituição. O Campus do CEFET-OP situa-se na Rua Pandiá Calógeras, nº 898, bairro Bauxita.

No CEFET-OP a arquiteta Marlysse Rocha, Luciana Carneiro e Ney Nolasco, coordenadora, gestora e professor do Núcleo de Ofícios, respectivamente, recebeu o grupo do CECI. A primeira atividade foi conhecer o protótipo de uma casa construída pelos alunos do Curso de Ofícios, com as técnicas tradicionais locais: madeira, adobe, pau-a-pique e cantaria. A construção desse protótipo conta com o apoio do Núcleo de Ofícios da FAOP. Em seguida visitou-se o galpão onde são ministradas as aulas práticas dos cursos dos ofícios tradicionais. Um espaço exclusivo, com máquinas, equipamentos, ferramentas e materiais para as aulas de adobe, taipa, fabricação artesanal de tijolos, pintura e instalações prediais.

Casa Protótipo e grupo no galpão do Núcleo de Ofícios do CEFET. Prof. Ney Nolasco e Marlysse Rocha (segundo e terceira à esquerda em pé) e Luciana Carneiro (primeira agachada à esquerda). Fotos: André Pina e Mateus Morbeck

Na tarde do dia 25/Nov, o Prof. Silvio Oliveira convidou o grupo para uma visita monitorada à Casa dos Contos, imponente construção de arquitetura civil colonial brasileira, que impressiona pela grandeza, austeridade e requinte técnico. Foi edificada entre 1782 e 1784, para ser a residência do contratador João Rodrigues de Macedo. Nela aconteceram importantes passagens da história de Minas Gerais. Aberta à visitação pública, na casa dos Contos atualmente funciona um Órgão da Receita Federal, o Museu Casa dos Contos e a sede do Centro de Estudos do Ciclo do Ouro (CECO). Está localizada à Rua São José, nº 12, Centro.

Na Casa dos Contos, o Sr. “Careca”, como é amorosamente conhecido, e que participou da restauração realizada em 1984 e terminou trabalhando como guia na casa, ciceroneou o grupo. Ele mostrou todo o imóvel, com especial atenção aos trabalhos de restauração de cada área. Visitaram-se todos os cômodos da casa, inclusive os que não são abertos ao público em geral. Isso possibilitou visitar o sótão, onde observou-se o sistema de tesouras da coberta e as técnicas de restauro utilizadas. No interior do imóvel também foi possível verificar prospecções em forros e paredes e o resultado das restaurações. Em várias salas foram deixadas janelas de visita com as pinturas originais. O grupo observou que os trabalhos de consolidação e reintegração das pinturas foram mais “agressivas” e extensivas, no sentido de que foi realizado um recobrimento quase total da pintura original. No terraço do pátio interno, existem painéis com a memória da restauração realizada em 1984.

Na Casa dos Contos, com o Seu Careca e na estrutura da coberta. Fotos: André Pina e Fernanda Craveiro

À noite, o grupo participou da solenidade de abertura do II Seminário Nacional Patrimônio Cultural: Conservação e Restauração no Século XXI, na sede da FAOP, situada na Rua Alvarenga, nº 798, bairro Cabeças. Construído no século XIX, o imóvel é também conhecido como Casa Bernardo Guimarães, por ter sido residência desse ilustre escritor ouro-pretano. Foi restaurada em 2006 e recebeu novos anexos para receber a FAOP. No evento, a coordenação do CECI teve a oportunidade de agradecer a atenção dispensada pela arquiteta Gabriela Rangel, Diretora da EARMFA, que desde a os primeiros contatos com o Prof. André Pina, em agosto de 2008, colaborou para possibilitar as visitas ao NRC e ao CEFET-OP pela turma da 8ª edição do Gestão de Restauro.

O dia 26/nov iniciou com a visita ao Parque Horto dos Contos, obra realizada com recursos do Programa MONUMENTA, que possibilitou a integração do antigo Horto Botânico com o fundo dos terrenos dos imóveis do Vale dos Contos, revitalizando toda a área que corta a cidade, da Rodoviária ao Pilar. O grupo foi recepcionado pela arquiteta Vanessa Braide, coordenadora da UEP-Ouro Preto. A visita começou pela entrada do Horto, próxima à Rodoviária, e se estendeu por mais de 2 km de percurso a pé, em trilha construída ao longo do Parque. A intervenção concluída em 2008 foi muito bem aceita pela comunidade local. O projeto contemplou áreas com decks para mirantes com vista para a cidade antiga, bancos e mesas para piqueniques, placas de sinalização e informações sobre espécies botânicas, play-grounds e quadras de esportes. Também foi realizado um serviço de desvio dos esgotos sanitários que poluíam o riacho existente. O grupo achou positiva a intervenção realizada em área histórica urbana de tamanha significância como Ouro Preto.

O grupo em um dos decks do Parque Horto dos Contos com a arquiteta Vanessa Braide (de blusa vermelha). Foto: Mateus Morbeck

À tarde, o grupo visitou a obra de restauração da Igreja de Santa Ifigênia, iniciada em 1736 pelos escravos e só concluída em 1776. A Igreja de Santa Ifigênia dos Pretos está localizada na Rua Santa Ifigênia, Alto da Cruz, na localidade do Padre Faria. Na igreja os alunos foram recepcionados pela arquiteta Maria Raquel Alves Ferreira, da Sub-Regional do IPHAN em Ouro Preto e pelo engenheiro Luis Edmir Ferreira Nunes, da Hexágono Engenharia, empresa executora dos serviços de restauração. Iniciou-se a visita com as explicações de Maria Raquel e Luis Edmir sobre os serviços em execução na igreja. Na nave e na capela-mor foi possível observar os serviços de restauração dos elementos artísticos. Pode-se observar que na restauração da coberta foi instalada uma manta como subcobertura intermediária entre a telha cerâmica e o forro de madeira. A igreja também recebeu tratamento para descupinização, utilizando análises laboratoriais para identificação do tipo de térmita e definição da técnica de aplicação do biocida.

Igreja de Santa Ifigênia, Ouro Preto. Na seqüência das fotos: explicações do engenheiro Luis Edmir e em cima dos andaimes, observando as restaurações do forro da nave. Fotos: André Pina

No momento da visita, estava sendo executada a restauração da pintura policromada do forro da nave. Segundo informações dadas pelo engenheiro Luis Edmir, o forro foi desmontado e levado ao chão para o serviço de “realinhamento” das tábuas. Posteriormente o forro foi remontado e foram realizados os serviços de limpeza, consolidação e reintegração pictórica. O grupo observou a aplicação inadequada de alguns materiais, como a massa acrílica para preenchimento dos rejuntes e a reintegração da pintura mais parece uma “repintura” do que uma reintegração da policromia. Não foi identificada a aplicação de técnicas como o pontilhismo, o trattegio etc..

Igreja de Santa Ifigênia, Ouro Preto, observando as restaurações dos elementos decorativos dos altares. Fotos: André Pina

As atividades do dia 25 foram culminadas com a visita à Capela do Padre Faria, edificada em 1710 com devoção a Nossa Senhora do Rosário, localizada próxima à Igreja de Santa Ifigênia. À noite, o grupo foi comemorar o aniversário do Prof. André Pina, numa festa surpresa em restaurante da cidade, num momento de alegria e descontração.

O dia 27/nov foi programado para as visitas às obras na cidade de Mariana, primeira capital das Minas Gerais. Fundada em 1711, Mariana fica próxima de Ouro Preto uns 14 km. O encontro em Mariana ocorreu na sede da UEP-Mariana/Programa MONUMENTA. O grupo foi recebido pela coordenadora Fátima C. F. de Souza Guido, pelas arquitetas Fernanda Bueno (UEP-Mariana) e Ana Paula Alves Ferreira (IPHAN-Mariana) e pelo instrutor de cantaria Reinaldo Urzedo, que fez o curso de capacitação do Programa MONUMENTA, em Veneza, juntamente com Hamilton Martins, instrutor do CECI. Assistiu-se a palestra da Srª Fátima Guido sobre a história da cidade e sobre as propostas da Prefeitura de Mariana para intervenções arquitetônicas e urbanas em Mariana. As intervenções estão baseadas nas diretrizes do Plano Diretor da Cidade de Mariana, cujo arquivo digital foi disponibilizado para o grupo, e sobre a criação do Plano Diretor Urbano e Ambiental, elaborado em conjunto com o Instituto Pólis. Em seguida, a arquiteta Fernanda Bueno apresentou as intervenções do Programa MONUMENTA na cidade, em sua maioria obras urbanas, revitalização de praças, basicamente implantação de paisagismo para melhor aproveitamento do espaço ou para a valorização dos monumentos e da ambiência. Reinaldo Urzedo complementou com uma apresentação sobre as intervenções de cantaria nas obras realizadas na cidade, nas quais são utilizadas pedras comuns na região: pedra sabão, xisto e quartzito.

Com a arquiteta Fernanda Bueno, na palestra na sede da UEP-Mariana e na visita ao imóvel da Rua Dom Viçoso. Fotos: André Pina

A primeira visita em Mariana foi à Praça de Minas Gerais onde se encontram a Casa de Câmara e Cadeia e as Igreja de São Francisco de Assis e de Igreja de Nossa Senhora do Carmo. A praça sofreu intervenção na tentativa de recuperar seu aspecto do século XVIII, integrando a ambiência do conjunto dos três monumentos. Na visita a Casa de Câmara e Cadeia, observou-se as intervenções de recuperação da cantaria. Em seqüência seguiu-se para o imóvel da Rua Dom Viçoso, nº 58, restaurado e adaptado para uso comercial através do componente Imóveis Privados do Programa MONUMENTA. Observou-se a utilização da cal nas argamassas de revestimento, embora seja feita percentual de adição de cimento portland.

Conjunto da Praça Minas Gerais, em Mariana. Foto: Mateus Morbeck

Seguiu-se após para o antigo Palácio dos Bispos, restaurado para funcionar o Museu da Música. Nesse imóvel do século XVIII, Reinaldo Urzedo mostrou as peças de cantaria restauradas. A visita a Mariana terminou com na Praça da Sé, onde foi realizado um trabalho de urbanização, com retirada do estacionamento de veículos e com a realocação da fonte em pedra sabão, trabalho também realizado por Reinaldo Urzedo.

Com Reinaldo Urzedo e Ana Paula Ferreira, no antigo Palácio dos Bispos de Mariana. Foto: André Pina

O dia 28/nov, último dia da viagem de estudos começou na cidade de Tiradentes, com passagem por Ouro Branco, Congonhas, para visita aos serviços de restauração das capelas com as obras de Aleijadinho. Em São João Del Rey o grupo foi convidado a ver os danos que uma tempestade, ocorrida uma semana antes, causou em igrejas e casas do centro histórico. Entretanto, por ser essa uma viagem de aproximadamente 12 horas, os alunos decidiram mudar o destino para Santa Bárbara, cidade mais próxima à Tiradentes e com possibilidade de ida ao Colégio do Caraça. Adriano fez contato com.

Em Santa Bárbara, o grupo foi recepcionado pela arquiteta Maria Rachel Ayres, ex-aluna da 7ª edição do Curso de Gestão de Restauro (2007), com um café da manhã mineiro, regado a muito pão de queijo, na casa do Sr João Ayres, avô de Rachel. É uma casa colonial com interessantes elementos estruturais em madeira. Ela mostrou problemas que ocorriam no imóvel e como estavam sendo resolvidos.

Café da manhã mineiro, em Santa Bárbara, com Rachel Ayres. Foto André Pina

Houve a visita à Casa de Afonso Pena, ex-presidente da República e filho ilustre da cidade. O imóvel está com sua tipologia muito íntegra e é de construção simples, mas, todos se surpreenderam com um forro em gamela de um dos quartos, com uma bela pintura representando todos os continentes. Na calha da rua observou-se as instalações do sistema de embutimento da rede de energia elétrica, executadas de maneira simples e descomplicada.

Em seguida o grupo visitou a Matriz de Santo Antonio, igreja que surpreende pela riqueza de elementos artísticos em seu interior em contraponto com a simplicidade das formas e adereços do seu exterior. Nela foi realizada a restauração de pintura em madeira, cujo resultado agradou a todo o grupo reintegração pictórica ter sido bem sutil.

Matriz de Santo Antonio, Santa Bárbara – MG. Exterior e interior. Fotos: Mateus Morbeck

O grupo visitou o Hotel Quadrado, tradicional hotel da cidade, que foi restaurado mantendo e destacando elementos estruturais e de revestimentos da construção original, resultando numa boa intervenção. Depois, a Estação Ferroviária, que está com sérios problemas estruturais, principalmente nos elementos metálicos da coberta. Muitas fissuras são vistas na alvenaria do imóvel. Está em fase de projeto para receber intervenção de restauração.

As atividades em Santa Bárbara terminaram com a visita à Casa do Mel, museu municipal sobre essa importante atividade produtiva da região, restaurado com projeto de intervenção de autoria de Maria Rachel Ayres, a anfitriã da visita à cidade.

A última atividade da Viagem de Estudos foi a subida à Serra do Caraça até o Santuário, que fica isolado no meio da serra. Construídos em 1828, o seminário e o colégio foram muito importantes no passado. O conjunto foi transformado em espaço turístico, com centro de visitação, hospedaria, museu, biblioteca e restaurante, mas mantendo a atmosfera de contemplação e meditação.

A igreja, em estilo gótico, está muito bem preservada. Há pouco tempo recebeu restauração de alguns elementos artísticos. A visita foi rápida, mas o suficiente para se ter uma boa noção do conjunto. As ruínas do colégio têm origem num incêndio em 1968, ocasionado por descuido de um aluno. Nelas foi instalado o Museu do Caraça. Todos concordaram com o bom aproveitamento das ruínas.

Santuário do Caraça. Com Rachel Ayres nas ruínas do Colégio. Foto André Pina

O grupo retornou para Ouro Preto, todos cansados, mas satisfeitos do bom resultado da maratona de estudos. Fora da programação das visitas orientadas, o grupo pode constatar várias outras intervenções e patologias nos imóveis que situavam nos percursos das caminhadas a pé por Ouro Preto. Viram-se instalações de pára-raios nas igrejas, problemas de cantaria em fontes, pontes e cruzeiros, sobrados com danos nas alvenarias e nos revestimentos. O imóvel da Rua Felipe dos Santos, nº 165, próximo ao nosso QG, onde hoje funciona a Pousada Vila Rica, chamou especial atenção do grupo. O imóvel, que é de 1750 e o único em Ouro Preto com azulejos na fachada, apresenta diversas patologias nos silhares, principalmente nos dos trechos inferiores, devido à umidade ascendente, que também compromete a cantaria das portadas. O proprietário informou que tentou substituir os azulejos danificados por outros confeccionados especialmente sob modelo, mas que não ficaram em bom aspecto, inclusive com cores em tons diferentes dos originais.

Na viagem de estudos, os alunos puderam treinar o olhar investigativo sobre as técnicas e metodologias para criar um paralelo entre o que foi observado em Pernambuco e na Paraíba com o que puderam ver nas Minas Gerais. Observou-se nas duas regiões que a aplicação da argamassa de cimento sobre a argamassa de cal ainda é usual pelos técnicos. Também, a substituição integral de peças de madeira ou de cerâmica danificadas novos elementos é uma prática regular, comprometendo a autenticidade da edificação. Estima-se que essa conduta é mais por falta de conhecimento que por praticidade das intervenções. A aplicação de metodologias diferentes em cada instituição faz lembrar um jogo sem regras definidas, onde cada qual atua como melhor lhe parece conveniente. Uma das causas identificadas como responsável por essa atitude tem origem nas licitações de menor preço, que comprometem a qualidade da obra.

A coordenação do CECI, ficou satisfeita pelo resultado alcançado pela turma em todo o Curso, e com o nível de satisfação visto dos alunos, principalmente no Módulo Presencial e na Viagem de Estudos – Todos de parabéns!

Veja sobre as viagens de estudos das turmas anteriores: 7a edição ; 6a edição ; 5a edição ; 4a edição ; 3a e 2a edições

 

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