INTERVENÇÕES SUSTENTÁVEIS E INTELIGENTES

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si_4aO CECI entende como sustentável as intervenções que sobrevivem ou persistem no tempo. Para este signatário, correspondem às ações que foram aprovadas nos testes aplicados pelo laboratório do tempo. Embora toda e qualquer intervenção cause modificações no bem cultural, as realizadas com base nos procedimentos semelhantes às técnicas construtivas da edificação têm, em princípio, um saldo positivo de longo prazo maior que aquelas baseadas em resultados imediatos com produtos sintetizados pela indústria moderna. A principal vantagem dessa atitude é a da ampliação das possibilidades de se garantir a autenticidade dos componentes construtivos de uma edificação de valor cultural.

É claro que, quando se utiliza o princípio da autenticidade para nortear as ações de conservação de bens culturais adentra-se em um território de especulações teórico-filosóficas. Neste sentido, há casos emblemáticos e didáticos que estão sempre presentes nos estudos acadêmicos, como o do refazimento do barco de Jasão na estória mitológica do herói grego e o da cabeça do faraó Ramsés, no Templo de mesmo nome, em Abu-Simbel, no Egito. Ambos os casos pode-se dialeticamente conciliar a dicotomia entre os valores de autenticidade concebidos entre o Oriente e o Ocidente.

No caso, o CECI compreende por intervenções inteligentes aquelas que têm a capacidade de se adaptar ao meio material (e imaterial) do objeto de modo garantir um equilíbrio progressivo entre o “novo” e o antigo [i]. Ambos os termos levam ao entendimento de que, uma intervenção é sustentável quando garante ao objeto uma sobrevida maior, isto é, um prolongamento da expectativa de sua trajetória. Uma intervenção é inteligente quando garante a resiliência do material no longo prazo e sua capacidade de carga (uso) [ii]. Como testemunho expressivo dessas assertivas, apresenta-se a técnica antiga das alvenarias de tijolos ou de pedras argamassadas com argila, conhecidas como argamassa bastarda. Segundo ARAÚJO, ao se caracterizar, a partir de testes e análises laboratoriais as argamassas bastardas ou se estabelecer comparações com as argamassas de cal e areia, chega-se às seguintes conclusões: 1) são mais porosas; 2) são muito mais frágeis aos esforços de compressão. Entretanto, a maior porosidade do ponto de vista da conservação e da restauração dos edifícios antigos é uma virtude, porque deixa respirar os antigos muros - é justamente a alta porosidade. Pode-se concluir que uma das características mais surpreendentes dessa alvenaria é a sua pouca rigidez e, conseqüentemente, a sua capacidade de absorver acomodações de toda sorte [iii]. Foi o caso da aplicação da mesma técnica na recuperação de partes das grossas alvenarias das colunas de tijolos de barro maciços, secos ao sol (adobe), assentes com argamassa de argila e caiados no antigo Engenho Poço Comprido, em Vicência, Pernambuco (Brasil), datado do século XVII.

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Img. 1 – Moita do Engenho Poço Comprido. Fonte: CECI/nov2008

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Img. 2 – Aspecto das colunas em alvenaria de tijolos da moita do Engenho Poço Comprido. Fonte: CECI/nov2008 Img. 3 – Detalhe da alvenaria de tijolos da moita do Engenho Poço Comprido. Fonte: CECI/nov2008

Algumas outras técnicas e intervenções podem ser observadas no âmbito do Brasil como as realizadas nas edificações em terra, numas das técnicas denominada taipa-de-pilão, ou em peças estruturais de madeiras de assoalhos, forros e telhados, ou em cantarias de pedras calcárias e areníticas. Na verdade, seja como for e onde for o princípio dessas intervenções baseia-se na utilização dos mesmos materiais do componente construtivo objeto das ações preventivas ou corretivas. Isso porque a interação de materiais de mesmas propriedades acarreta mínimas reações físico-químicas e de tensões tangencias.

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Img. 4 – Processo de confecção de taipa-de-pilão para procedimentos de enxertos e próteses. Fonte: Curso Gestão de Restauro/CECI/nov2009 Img. 5 – Refazimento de taipa-de-pilão e de alvenarias de tijolos adobe no restauro da Matriz de Pirenópolis, Goiás. Fonte: Adriano Assunção/Biapo/2007
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Img. 6 – Detalhe de sambladura tipo mão-de-amigo para prótese em peças estruturais de madeira, utilizada nas tesouras do telhado da Basílica da Penha. Dispensa o uso de metais para compleição de rigidez da peça. Fonte: CECI/nov2008 Img. 7 – Consolidação das alvenarias de adobe da capela mor da Igreja de N. Sra. De Belém (Cachoeira/Bahia) feita em concreto armado, substituindo-se os esteios de madeira que poderiam ter sido encachorrados com samblagens mão-de-amigo.  Fonte: CECI / nov2006.

O uso de materiais e técnicas tradicionais da construção nas intervenções em componentes construtivos de edificações de valor cultural no Brasil ainda é muito tímido. Até os meados da primeira década deste século, os principais divulgadores desse procedimento eram, no Sul, Isabel Kanan, arquiteta da 11ª SR/IPHAN (Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e os professores do curso Gestão de Restauro do CECI no Nordeste. Contrariamente a essa postulação, o que ainda se verifica em todo o país é o mais amplo emprego de materiais e técnicas antagônicos à história construtiva do edifício. Com a autoridade de quem verifica anualmente, nas principais cidades históricas do Brasil, os procedimentos de execução de obras e serviços em edificações tombadas pelos poderes públicos federais, estaduais e municipais, o CECI destaca intervenções com materiais e técnicas que acarretam o que se denomina ruína precoce.

O termo "ruína precoce" foi utilizado inicialmente pelo arquiteto e urbanista Dr. Lúcio Costa, em 1947, num parecer sobre o tombamento da Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha. Referia-se ele a “certos defeitos de construção e abandono a que foi relegado esse edifício pelas autoridades municipais e eclesiásticas...”.[iv] Embora desconhecendo a constatação do mestre face ao estado de arruinamento precoce daquela edificação moderna, com tão pouco tempo de construção, este autor usou esse termo em 1978 para designar a rápida falência de materiais empregados em algumas obras de restauração nas Minas Gerais e outros estados do Sudeste. É incrível que decorridos tantos anos, verifica-se que as recentes intervenções de conservação e restauro do patrimônio construído situações de colapso antecipado e acelerado das características físico-químicas de certos materiais quer pela impropriedade do seu emprego quer pela qualidade técnica do produto [v].

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Img. 8 – Arruinamento precoce da fachada de um sobrado, localizado à Rua do Bom Jesus, na cidade do Recife, dois anos após um grande empreendimento de recuperação geral das edificações naquele logradouro histórico. Fonte: CECI/jul2004 Img. 9 – Rebocos de um muro de uma casa, à Rua de São Bento, em Olinda. Com um mês de execução do restauro já apresentava graves infestações de fungos e proliferação de algas, antes mesmo de ser pintado. Fonte: CECI/nov2007

Jorge Eduardo Lucena Tinoco, arquiteto, professor do Curso de Gestão de Restauro e responsável técnico do CECI.

[i] Analogia tomada do estudo da inteligência de pedagogo Piaget. Veja-se “Psicologia da Inteligência”, PIAGET, Jean. Editora Fundo de Cultura, 2ª edição, Rio de Janeiro, 1961.

[ii] MOITA, José Machado Neto, «O conceito multidisciplinar de Resiliência» [consulta: 20.07.2011] http://www.fapepi.pi.gov.br /novafapepi/ ciencia/documentos/Resili%EAnciaMoita.PDF (acesso jul/2011).

[iii] ARAÚJO, Roberto A. Dantas de. «As Argamassas no Período Colonial». In Aula 20 do Curso Gestão de Restauro,  Técnicas Construtivas Tradicionais no Brasil – TCTB, 7ª edição, Olinda, 2007.

[iv] PESSÔA, José Simões de Belmont. In “Lucio Costa: Documentos de Trabalho”, Iphan, Rio de Janeiro; 1ª edição, 1999

[v] TINOCO, Jorge E. L. «Ruína Precoce». In Conservação Integrada do Patrimônio Construído, [consulta: 12.12.2011]. http://conservacaointegrada.blogspot.com/

 

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